Machistas? Nós???
KENNEDY RICHARD SILVA GUERRA
Esse foi o texto que me garantiu um lugar entre as 10 melhores redações, na categoria ensino médio, na 2ª edição do Prêmio Naíde Teodósio de Estudos de Gênero (2008).
Centro Federal de Educação Tecnológica d e Pernambuco / RECIFE
Vivemos diante de um quadro preocupante na sociedade pernambucana. Trata-se da violência discriminatória sofrida, no seu lar, pela mulher.
Vários casos registrados nos mostram o quanto a situação é séria. Basta ouvir com bastante atenção os noticiários de TV ou rádio. Vemos, não raro, ameaças de morte, espancamentos, deboche, humilhação, e casos de homicídios. E toda essa violência, veiculada às mulheres... Porque são mulheres! Segundo pesquisa do Observatório da Violência Contra as Mulheres em Pernambuco, apenas no nosso estado, de
Mas o que tem motivado toda essa violência? O que tem feito os homens pernambucanos (e brasileiros) serem tão agressivos com suas mulheres? A resposta para essa pergunta é simples: os pensamentos machistas da nossa sociedade. Sempre presentes e quase nunca repensados, ainda perduram e apresentam muita resistência nos dias de hoje. Um homem responderá que não é machista quando lhe perguntarem, mas dirá que vive numa sociedade machista. Então, onde estão os machistas? Ninguém quer admitir, porém todos somos atingidos pelo machismo.
Não adianta tentar disfarçar. Quem não fica surpreso quando ao ir à oficina para consertar o carro, se depara com uma mulher?! Quem numa situação dessas não acaba falando algo como: "Eehhh... É você quem vai consertar meu carro?!" Ou quem não vai, pelo menos, ficar surpreso diante de tal situação? Muito poucas pessoas, é verdade.
Nossa sociedade está impregnada com esse tipo de pensamento, esse machismo infundado e nocivo. "A mulher é mais fraca, mais limitada, toda 'delicadinha', não tem o mesmo potencial dos homens, a mesma energia". "A mulher tem de obedecer cegamente ao homem, mesmo quando ele está errado no que pensa ou faz". E se não obedecer? Sofre violência.
Essa triste realidade tem afetado as mulheres de duas maneiras principais: tem limitado significativamente o crescimento, a emancipação da mulher na sociedade; e tem encorajado a violência sexista contra a mulher, dentro (onde ocorre mais acentuadamente) e fora de seu lar.
Tive a oportunidade de vivenciar isso muito de perto mesmo. Uma amiga foi criticada quanto à sua escolha de fazer um curso que não era "muito adequado" para ela: Mecânica. Na sua turma, de trinta e cinco alunos, ela é uma das quatro meninas do curso. Não nego que a profissão exige um porte físico que é próprio do homem, e que uma mulher teria dificuldades em desempenhar muitas das tarefas comuns à profissão (muitas vezes há até legislação para proteger a integridade física da mulher de atividades que sejam fora de seu padrão muscular). Mas vejo que nesse caso houve machismo por parte dos que fizeram as críticas (uma delas era mulher!). E isto aliado a certa ignorância, pois, se pesquisassem sobre o assunto saberiam que há áreas da Mecânica que têm privilegiado as mulheres, como, por exemplo, linhas de montagem de carros e acabamentos de peças, serviço este que é importantíssimo.
A situação chega a ser muito pior. Infelizmente, muitas mulheres têm aderido a esse machismo, discriminação. Desistem de crescer em sua carreira profissional, acham que não podem melhorar de vida, afinal "são mulheres, e o que podem esperar de si mesmas no mundo lá fora?", pensam elas. Elas perdem a capacidade de sonhar, de pensar alto. O nosso Estado perde muito por causa disso, em todas as áreas.
Só isso já é um crime contra a consciência feminina. Mas não para por aí: as mulheres pernambucanas ainda são alvos da violência acentuada dentro de casa, porque são o "sexo frágil" e têm de atender às exigências dos homens, geralmente os mais próximos como marido, namorado, irmão, tio etc. Essa violência cresceu tanto a ponto de se criar uma lei específica para o delito, Lei Maria da Penha Maia (que está em vigor desde setembro de 2006 e contribuiu muito para a diminuição dos casos aqui em Pernambuco, líder em violência contra a mulher). A Pesquisa Ibope/Instituto Patrícia Galvão (2006) revelou que mais da metade da população brasileira conhece ao menos uma vítima de agressão praticada por homens.
Isso é alarmante. As mulheres não devem ter sua individualidade discriminada. O preconceito existente por parte da sociedade prejudica as mulheres, mas prejudica muito mais a própria sociedade. Por quê? Porque as mulheres pernambucanas têm muito mais a nos oferecer do que supõe o nosso vão machismo. As nossas mulheres são batalhadoras, enérgicas, cada vez mais participantes na sociedade, no mercado de trabalho, no dia-a-dia do nosso Estado.
É preciso não só a reflexão sobre o assunto, mas o efetivo agir de todos. Governo e cidadãos pernambucanos devem colaborar, cooperar para a erradicação desses índices tão altos de violência, pois sabemos que isso não acontece do dia para a noite.



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